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Paráxeni – 08 – Quando um Rei Cai

“Anaxândridres estava inepto, como uma árvore em um dia sem ventania. Ao seu redor, de cabeça baixa, Esparcíatas de grande importância para o Estado respeitavam a situação do Rei.”

Narração, produção, texto e edição: Marco Febrini

Arte da Vitrine: Thiago Santana

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[Transcrição do episódio]

 

Todas as vezes que meus olhos se cruzavam com os de Cletarco, eu tinha apenas uma certeza: Ele via a verdade dentro de mim.

Em minha mente ele não sabia de nada, nem de Lanthasménos, nem de meu futuro filho, ou sequer de meus planos de abandonar Esparta, mas, ele penetrava em meu coração com olhos astutos. Olhos experientes e corajosos.

As questões que eu lhe trazia diariamente, sobre o manuseio da argamassa, a remoção da pedra, o corte da madeira e outras perguntas sobre arquitetura, já não lhe eram estranhas. Ele a todas respondia, ensinando-me tudo aquilo que havia aprendido em seus anos na forja e em Esparta.

Mas ele sabia.

Eu sentia em todos os músculos de meu corpo que ele sabia da verdade.

Com ele eu aprendi a escolher a madeira, lhe aprumar o corte e separar as ripas. Encontrar o mármore e o calcário, cortar a pedra e deslocá-la até onde eu desejasse. Especializei-me em técnicas que poucos conheciam, como a demorada arte do Mousaikón, a arte das musas, onde o encaixe perfeito das pedras proporcionava um solo resistente e suave para a morada.

Os dias de aprendizado eram árduos, e eu passava o dia dividido entre os treinamentos na Katályma, as lições de Cletarco e os cuidados com Lanthasménos.

Ao fim do dia as árvores se tornavam ripas e tábuas, as pedras transformavam-se em degraus e lajotas, meu corpo se fortalecia e se desenvolvia, e meu amor tinha o suprimento da noite e a segurança da madrugada.

Construir uma morada Espartana era mais complexo do que eu imaginava. Toda a estrutura consistia em um quadrado amurado, com um pátio circular no centro, e era desse pátio que os cômodos brotavam, como as pétalas que saem do centro da flor.

Mas a morada Espartana não era frágil como uma flor de primavera. Nossas casas são como fortalezas, e todo e qualquer habitante de Esparta poderia se guarnecer dentro de seus muros por meses. Era exatamente disso que Lanthasménos precisava em meio à floresta, e foi isso que eu lhe entreguei, com minhas próprias mãos. Como lhe foi prometido.

Meus planos de deixar Esparta não me agradavam em nada, pois era ali que eu vivia, e ali foi onde meu corpo havia sido forjado, mas eu não poderia viver em um local tão distante de meu coração, e ele repousava no sorriso de Lanthasménos. Minha vida não tinha mais sentido longe de meu amor, e pouco importava o que poderia acontecer à cidade. Nesse amor me perdi completamente, esqueci de meus deveres com o Estado, e pensava apenas em prover tudo que eu pudesse, para ela e para nosso filho.

As lições já haviam sido aprendidas, e as folhas das árvores já haviam caído por alguns meses. A hora havia chegado, era o momento de construir as bases da vida de meu filho.

 

 

A terra, a água, o barro e a lama eram meus companheiros.

A ponteira, o malho, as faíscas e o suor me acompanhavam pela noite.

E assim comecei a construção. Encontrava-me com meu amor sempre no final da tarde, e com ela permanecia até o início da madrugada.

Limpei o terreno com as mãos nuas, tufo por tufo, grama por grama, arrancados direto da raiz, para que não crescessem novamente por sob a argamassa.

Com minha espada desenhei, no tronco de um dos castanheiros, como seria o projeto da casa.

Escavei o solo, com ferramentas produzidas por mim mesmo, nas forjas de Cletarco. Nivelei o terreno e estudei a posição do sol e dos ventos. As árvores caíam às dúzias, e delas eu tirava os recursos de que eu precisava, cortando e esculpindo a madeira até meus dedos amolecerem de cansaço e minhas mãos sangrarem de esforço. E mesmo assim eu não parava, pois o tempo estava rompendo as barreiras de minha estimativa, e Lanthasménos, deitada no solo, me observava com a barriga cada vez maior. Nosso filho estava a caminho e ele não esperaria o término de meu trabalho.

Nos poucos momentos em que eu não estava cortando, quebrando, erguendo ou arrastando algo, eu caçava o alimento para os corpos de meu amor e meu filho, e me contentava com as sobras.

Enquanto as mãos eram utilizadas para a refeição, os pés descalços trabalhavam, pisoteando e misturando a lama, o pó de mármore, e a palha seca. Nenhuma dessas coisas veio de Esparta, nenhum construtor havia as trazido e preparado os recursos. Essa era minha função e meu desejo.

Pois em Esparta a palavra é firme como os braços de Hefesto! Em Esparta não há desistência!

E assim os dias foram se seguindo, com treinamento extenuante na Polis, e trabalho árduo na floresta. Meu corpo reagia a todos esses estímulos, se desenvolvendo e se fortalecendo.

O solo fora preparado, pois eu dominava a arte do Mousaikón. Com a argamassa despejada no terreno, o encaixe das pedras de mármore foi feito. Perdi as contas de quantas vezes minhas unhas se quebraram, partidas e viradas para trás, devido ao esforço repetitivo e demorado. Grandes buracos eram deixados em pontos estratégicos, pois ali seriam erguidas as colunas de madeira.

E assim eu o fiz, com o auxílio de estruturas de madeira e cordas de trepadeiras, eu ergui as poderosas colunas, encaixando sua base no solo. Em seguida, o espaço entre a madeira e o Mousaikón era preenchido com pedras e argamassa. Eu tinha planos de esculpir todas as colunas no futuro, contando a história de minha família com Lanthasménos e nosso filho, mas os Deuses assim não permitiram.

O pátio circular foi terminado conforme as paredes de madeira eram erguidas, uma a uma, presas às colunas por pinos e amarrações. No centro do pátio eu montei, com pedras e argamassa, uma pequena fonte, para que Lanthasménos não precisasse sair à noite para buscar a água do riacho. Todos os dias, assim que eu chegava à floresta, ele era reabastecido novamente.

O telhado foi estruturado com ripas de madeira e palha, presas com cordame de galhos, compactas de forma a não permitir a passagem da água da chuva.

Nesse momento meu amor já dormia sob um teto.

O muro externo foi erguido de forma demorada, pois as paredes de madeira recebiam um reforço rudimentar de pedras e argamassa, por dentro e por fora, empilhadas na base da tábua.

Criar os móveis e utensílios foi a parte mais fácil, e todos eram criados com esmero. O pátio estava coberto, assim como toda a morada, e caminhar por sobre o Mousaikón de pés descalços era relaxante, já que as pequenas pedras arredondadas eram frias e proporcionavam uma sensação macia ao caminhar. O brilho da tarde entrava pelas janelas e iluminava a casa com uma luz calma.

Durante todo esse tempo meu amor assistia deitada na grama. Comendo ou rindo, me contando histórias e fazendo plano para quando fossemos Rei e Rainha de Esparta. Ela vivia me dizendo que eu seria o seu Rei Urso, e o sorriso que seguia essa frase me arrebatava o coração.

O Rei Urso, alcunha amaldiçoada.

Ela fantasiava com nossas posições na cidade, assim que Anaxândridres deixasse o trono. As minhas pretensões eram outras, e o trono de Esparta não significava nada para mim.

Infelizmente, para ela significava tudo.

A morada estava pronta, e Lanthasménos já estava grávida a mais de sete meses, algo que me preocupou imensamente. Eu conhecia a força de meu amor, mas ela não poderia passar pelo momento do nascimento de nosso filho sozinha. Se os Deuses o trouxessem ao mundo enquanto eu estivesse em Esparta, eu poderia perder meu amor e meu filho de uma única vez.

Então, eu procurei uma das únicas pessoas em quem eu confiava: Leônidas.

Pedi ajuda a meu irmão, e ele me atendeu. Havia duas mulheres Espartanas que poderiam ajudar. Ambas de confiança, que não ousariam ir contra um pedido do filho do Rei. E assim foi feito, as duas Espartanas passaram a morar com Lanthasménos, e ela agradeceu por isso, pois sabia que nem mesmo ela seria capaz de passar por aquilo sem ajuda.

Mas Leônidas me fez um pedido a seguir, um pedido de irmão. Pediu que eu desse um nome de sua escolha a meu filho, pois ele já o amava como tio, mesmo antes do nascimento.

Ele lhe chamou Dásos, pois ele nasceria na floresta, e assim foi feito.

Tudo caminhava bem, e as coisas se acertariam finalmente, mas, em uma manhã, enquanto eu e meu irmão treinávamos com lanças, um Esparciata trouxe a informação: Nosso pai adoecera. Anaxândridres estava em seu leito, enfermo, entre a vida e a morte.

Durante todo esse tempo meu amor assistia, deitava na grama, comendo ou rindo, me contando histlhadas desde a base da te me c

 

Meu irmão e eu entramos no aposento, rápidos como lobos, esbaforidos como nunca antes ficamos. O mármore refletia os raios de sol que penetravam pelos finos tecidos das janelas. A cama era simples e rústica, feita de madeira e freixo seco, mas transmitia um ar imponente, pois em seu leito repousava o Rei de Esparta.

Os olhos de meu pai, anuviados e desanimados, fitavam uma janela, onde encontraram uma ave do Oriente. O pássaro não se movia, como se fizesse parte da estrutura do cômodo, suas asas eram negras e seu bico era vermelho como o sangue. Toda sua cabeça era horripilante, e nem as penas de seu corpo eram harmônicas ou belas.

Anaxândridres estava inepto, como uma árvore em um dia sem ventania. Ao seu redor, de cabeça baixa, Esparcíatas de grande importância para o Estado respeitavam a situação do Rei.

Em um ato de muito esforço meu pai moveu seus olhos.

Eles fitaram Leônidas, e pareciam sorrir. Orgulhosos.

Quando seu olhar repousou sobre mim, um de seus olhos desprendeu uma lágrima, triste e solitária, silenciosa como o desabrochar de uma flor. Ele nada disse, mas em minha mente só havia uma frase: Paráxeni, a Ruína de Esparta.

Esses foram os últimos movimentos de meu pai, que permaneceu em estado vegetativo por mais alguns anos.

Os Esparcíatas entenderam a vontade de Anaxândridres, e Leônidas foi exaltado como o novo Rei de Esparta.

O íbis eremita, de asas negras e bico vermelho, voou pelos ares, como se levasse para longe minha honra.

Nesse momento senti uma dor angustiante no peito, como se os próprios Deuses estivessem apertando meu coração. Cai sobre um joelho, e fui amparado por Leônidas, que abriu caminho a cotoveladas por entre os homens. Nenhuma palavra precisou sair de minha boca, para que ele entendesse que eu precisava ver Lanthasménos.

Sai do aposento tão rápido quanto um pensamento. Me livrei das vestes e corri como nunca antes em minha vida. Atravessei o arco da cidade, e continuei avançando, os olhos repletos de lágrimas, a mente em plena confusão, a respiração descontrolada e afoita.

Senti como se minha alma estivesse sendo arrancada de meu corpo, da forma mais selvagem e cruel possível. Eu não sabia o motivo pelo qual eu corria, mas eu não podia parar.

Minhas pernas, fortes como os troncos de um carvalho, estremeciam e bambeavam, pois meu coração se apertava a cada passo. Os pés afundavam na terra e a grama não tinha mais toque. Um galho de Oliveira, muito fino e resistente, foi de encontro ao lóbulo de minha orelha direita, partindo-o em dois, mas eu não vacilei, meu objetivo era a morada de meu amor.

Então os Deuses me atenderam, e lá eu cheguei.

A primeira coisa que vi foi uma das mulheres, enviadas para ajudar Lanthasménos, morta do lado de fora dos muros, em seu pescoço havia uma fina linha vermelha, riscada com alguma lâmina. E sobre seu rosto eu a vi, a ave negra do Oriente, devorando-lhe um dos olhos.

Irrompi pela porta principal, quebrando uma das dobradiças e trincando a madeira com o ombro, e corri para o centro do pátio.

Minha segunda visão não me acalmou. Uma das Espartanas estava por sobre a fonte. A mulher, repleta de buracos, esfaqueada brutalmente, dançava entre sangue e água, boiando sem vida.

Meus olhos arregalados doíam, e eu empunhei o enxadão que descansava em uma parede próxima. Pus abaixo a porta do aposento de Lanthasménos, com um violento pontapé, e foi aí que conheci a completa impotência.

As nuvens cobriram os céus. Talvez fossem os Deuses tentando apaziguar minha dor, mas eles falharam desastrosamente. Uma fina chuva começou a cair do lado de fora, eu me lembro até mesmo do cheiro.

Sangue e terra molhada.

Aproximei-me do berço de minha futura geração, e ele minava sangue por entre as ripas do estrado. As finas linhas vermelhas desciam até o solo, criando um circulo rubro ao redor do móvel.

Dásos repousava no leito, tal qual meu pai em Esparta.

Estendi minhas mãos, calejadas e ásperas, e o apanhei com todo o cuidado que pude.

Minhas pernas, exaustas há tempos, desistiram pela primeira vez, e eu caí de joelhos. As lágrimas eram intensas, nasciam em um choro violento, como a lava que irrompe do vulcão.

Mais de quarenta anos se passaram, e eu ainda me lembro do cheiro.

Em meus braços estava meu filho, Dásos, o nascido na floresta, como seu tio queria que se chamasse. Os olhos inchados, o nariz muito branco, a pequena boca fechada para nunca mais se abrir. O cordão umbilical ainda estava preso em sua barriga. Os pés e as mãos, tão pequenos e belos, estavam frios como a chuva. E afundado no topo de sua cabeça encontrava-se um punhal Persa, dourado como uma lembrança, opaco como o esquecimento.

Ali eu não era mais Paráxeni. Naquele momento eu não fui um Espartano.

Eu não entendia o que eu era naquele instante. Não havia treinado para ser, mas naquele acontecimento eu era só um homem. Era apenas um pai. E em meus braços estava meu filho, a coisa mais importante que a vida poderia me proporcionar, porém, a mais frágil que a morte pôde tomar.

Olivier Markendorf Collin

Sou uma pessoa muito ligada em arte, tecnologia, propaganda e cultura pop, internet etc... E por isso, acredito que resolvi virar designer gráfico e consultor de marketing. Amo minha família e amigos. Descrição: Adoro viajar, ver um bom filme(ficção), séries, videogames e gadgets. Gosto de cozinhar comidas diferentes em casos especiais. Curto astronomia, história e mitologia.... Ahn sim, amo meus gatos. Criei o Descolados com a ideia de falar sobre assuntos que amo e agregar novos amigos. Sou o criador também dos sites ACC, TPMCast, Ultra Combo, PARAXENI entre outros.

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